terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Escrever um Sonho

 

Naquela noite, adormeci com a sensação pesada de ter vivido mais um dia dentro das fronteiras estreitas do que é permitido. A vida acordada exige compostura, exige que se caminhe com passos medidos, que se deseje com discrição. Mas no instante em que o sono me levou, tudo isso se dissolveu como tinta na água.

O quarto do sonho era antigo, silencioso, iluminado por uma luz morna que parecia vir de velas escondidas. O ar tinha uma espessura diferente, como se cada partícula carregasse uma promessa. E ele estava ali, não como uma aparição súbita, mas como alguém que sempre pertenceu àquele espaço.

Não disse o meu nome. Não precisou. O modo como me olhava já era uma espécie de reconhecimento profundo. Aproximou-se devagar, com a reverência de quem pisa um território sagrado. No mundo real, eu teria recuado, teria lembrado as regras, as consequências, a prudência que tantas vezes me protege e me aprisiona. Mas ali, no território suspenso do sonho, o meu corpo não pedia permissão.

Senti o ar mudar quando ele se aproximou. Cada passo parecia ecoar dentro de mim, como se o chão vibrasse com a antecipação. Quando a sua mão tocou na minha — primeiro um toque leve, depois mais firme — algo dentro de mim cedeu. Não era rendição, era reconhecimento. Como se uma parte de mim, há muito silenciada, finalmente respirasse.

O sonho não tinha pressa. Ele também não.

A sua mão subiu até ao meu rosto, num gesto tão cuidadoso que quase doeu. A proximidade dele, fazia o ar aquecer, e quando inclinou o rosto para o meu pescoço, fechei os olhos. O simples roçar da respiração dele contra a minha pele era suficiente para incendiar tudo o que eu guardava em silêncio. Não havia palavras ousadas, apenas murmúrios suaves, como promessas antigas que nunca chegaram a ser ditas.

As mãos dele percorriam-me com uma lentidão que parecia estudada, como quem lê um livro raro, página por página, sem pressa de chegar ao fim. E eu deixava. Não por fraqueza, mas porque ali, naquele espaço onde nada era proibido, eu podia ser inteira. No sonho, não existia a mulher contida, a que pesa cada gesto. Existia apenas a mulher que sente, que deseja, que não pede desculpa por existir com intensidade.

Quando finalmente nos aproximámos por completo, não houve choque, nem urgência. Houve encaixe. Uma harmonia silenciosa, como duas peças que sempre pertenceram ao mesmo desenho. A minha respiração tornou-se irregular, o coração batia com força, mas era uma força boa, viva, que me lembrava que ainda havia fogo em mim.

Havia intensidade, sim, mas também cuidado. Fome, mas também respeito. Ele segurava-me como quem sabe o valor do que tem nas mãos. E eu respondia sem hesitar, guiada por um desejo que, na vida desperta, nunca ouso admitir.

No auge daquele calor, senti-me livre. Livre do julgamento, das convenções, da contenção que me acompanha como sombra. Era um abandono consciente e profundo.

Acordei antes do fim.

O quarto real estava escuro, silencioso. O corpo ainda guardava o eco do sonho, como uma chama discreta sob a pele. Fiquei deitada, imóvel, sabendo que talvez nunca tivesse coragem de viver aquilo à luz do dia.

Mas naquela noite, no território secreto do sono, fui tudo o que não ouso ser desperta.

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